Resenha / A Sombra do vento

3/20/2015

A Sombra do Vento é uma narrativa de ritmo eletrizante, escrita em uma prosa ora poética, ora irônica. O enredo mistura gêneros como o romance de aventuras de Alexandre Dumas, a novela gótica de Edgar Allan Poe e os folhetins amorosos de Victor Hugo. 
Ambientado na Barcelona franquista da primeira metade do século XX, entre os últimos raios de luz do modernismo e as trevas do pós-guerra, o romance de Zafón é uma obra sedutora, comovente e impossível de largar. Além de ser uma grandiosa homenagem ao poder místico dos livros, é um verdadeiro triunfo da arte de contar histórias. 
Tudo começa em Barcelona, em 1945. Daniel Sempere está completando 11 anos. Ao ver o filho triste por não conseguir mais se lembrar do rosto da mãe já morta, seu pai lhe dá um presente inesquecível: em uma madrugada fantasmagórica, leva-o a um misterioso lugar no coração do centro histórico da cidade, o Cemitério dos Livros Esquecidos. O lugar, conhecido de poucos barceloneses, é uma biblioteca secreta e labiríntica que funciona como depósito para obras abandonadas pelo mundo, à espera de que alguém as descubra. É lá que Daniel encontra um exemplar de "A Sombra do Vento", do também barcelonês Julián Carax. O livro desperta no jovem e sensível Daniel um enorme fascínio por aquele autor desconhecido e sua obra, que ele descobre ser vasta. 
Obcecado, Daniel começa então uma busca pelos outros livros de Carax e, para sua surpresa, descobre que alguém vem queimando sistematicamente todos os exemplares de todos os livros que o autor já escreveu. Na verdade, o exemplar que Daniel tem em mãos pode ser o último existente. E ele logo irá entender que, se não descobrir a verdade sobre Julián Carax, ele e aqueles que ama poderão ter um destino terrível.
                                                            


Antes de começar a resenha, de fato, tenho que confessar que Carlos Ruiz Zafón tomou meu coração de forma arrebatadora e irremediável. Sua escrita é, de longe, fenomenal. E este é, com toda a absoluta certeza, um dos meus livros prediletos; 

Em “A sombra do vento” nos é apresentado a história de Daniel Sempere que, ás vésperas do seu 11° aniversário, acorda chorando por não conseguir lembrar o rosto de sua falecia mãe. Foi nessa mesma madrugada gelada de 1945 que Daniel foi levado pelo pai para conhecer Cemitério Dos Livros Esquecidos, um santuário de livros desconhecido pela maioria das pessoas , e é lá que o pequeno Sempere se depara com o livro "Sombra Do Vento", de Julían Carax.

Tendo vivido a vida toda em um apartamento em cima de uma livraria especializada em edições para colecionadores e livros antigos herdados do avô, Daniel cresceu ao redor do livros e naturalmente, aprendeu a apreciá-los e respeitá-los. E, ao encontrar aquele exemplar de um livro desconhecido cujo o autor se sabia menos ainda, Daniel encontrou muito mais do que uma boa história; ele encontrou um amigo para o resto da vida e um delicioso mistério a se desvendar.
"Cresci no meio de livros, fazendo amigos invisíveis em páginas que se desfaziam em pó e cujo cheiro ainda conservo nas mãos."

Como percebi ser uma característica do autor, em “A sombra do vento” temos um entrelaço de histórias e personagens, paralelamente conhecemos e acompanhamos a história de Daniel, crescemos com ele e sentimos seus anseios e revivemos todos os seus descobrimentos a respeito da vida e, com o pequeno mas determinado Sempere, vamos em busca de Julían Carax e todo o mistério que cerca, tanto autor como obra. 
"Falei-lhe como, até aquele instante, não havia compreendido que aquela era uma história de pessoas solitárias, de ausência e de perda, e que, por esse mesmo motivo, havia me refugiado nela até confundí-la com a minha própria vida, como quem escapa pelas páginas de um romance porque aqueles que precisam amar são apenas sombras que moram na alma de um estranho."

A narrativa de Zafón é apaixonante, de uma fluidez impressionante. Sua expressividade é líquida. Contando uma  história por meio de metáforas magníficas e muito bem descritas.  Zafón consegue nos transportar para um enredo que mistura as atmosferas góticas de Edgar Allan Poe e os romances de Alexandre Dumas.
"Eu crescera convencido de que aquela lenta procissão de pós-guerra, um mundo de quietude, de miséria e de rancores escondidos, era tão natural quanto a água da torneira, e que aquela tristeza muda que sangrava das paredes da cidade ferida era o verdadeiro rosto de sua alma."

A sombra do vento é, antes de qualquer coisa, um ode aos livros e ao quão profundo eles podem marcar uma pessoa sábia o suficiente para permiti-lo. E Carlos Ruiz Zafón, com toda a absoluta certeza, é mais do que apenas um escritor, é um lírico, um artista capaz de tocar tão profundamente quanto seus excepcionais personagens. 
"O destino costuma estar na curva de uma esquina. Como se fosse uma linguiça, uma puta ou um vendedor de loteria: as três encarnações mais comuns. Mas uma coisa que ele não faz é visita em domicílio. É preciso ir atrás dele."


Resenha publicada, inicialmente, no Blog Feitas De Papel.

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